Olá! Sou a Dra. Clarissa Prati, médica dermatologista, e se você tem psoríase — ou conhece alguém que convive com a condição — este artigo pode te ajudar muito.
A psoríase é uma doença inflamatória crônica da pele, que atinge cerca de 2 a 3% da população mundial, segundo a Organização Mundial da Saúde. Embora o diagnóstico esteja se tornando mais comum, ainda existe muita desinformação circulando por aí. E o pior: esses mitos atrapalham diretamente o tratamento.
Já vi pacientes abandonarem terapias eficazes por medo injustificado. Outros demoram anos para buscar ajuda médica porque acreditam que “psoríase é frescura” ou “só uma alergia”. Por isso, reuni os 5 mitos mais perigosos sobre a psoríase — e mostro, com base científica, como combatê-los.
Vamos desmistificar tudo isso juntos?
Mito 1: “Psoríase é contagiosa”
Esse talvez seja o maior estigma enfrentado por quem tem psoríase.
Por causa da aparência das lesões (vermelhas, espessas, com descamação), muitas pessoas pensam que a doença pode ser transmitida pelo toque, beijo ou contato com toalhas e roupas. E isso é completamente falso.
A psoríase não é uma infecção. Ela é resultado de uma resposta inflamatória anormal do sistema imunológico. Não é causada por vírus, bactérias ou fungos. Ninguém “pega” psoríase de outra pessoa.
Esse mito, infelizmente, leva muitos pacientes a se isolarem, por vergonha ou medo do julgamento social. Já atendi pessoas que evitam praia, piscina, academias e até o contato com parceiros por receio de rejeição.
👉 A verdade: psoríase não é contagiosa, e quem tem a doença pode (e deve!) viver com liberdade, sem culpa ou vergonha.
Fonte:
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American Academy of Dermatology (AAD) – Psoriasis Overview
Mito 2: “Psoríase é só uma questão de pele”
“Se é só na pele, é só passar uma pomadinha, né doutora?”
Não é bem assim.
A psoríase é uma doença inflamatória sistêmica. Ou seja, a inflamação não se restringe à pele — ela afeta o corpo inteiro. E isso tem implicações sérias:
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Aumenta o risco de doenças cardiovasculares
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Está associada à síndrome metabólica
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Pode evoluir para artrite psoriásica
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Tem forte impacto sobre saúde mental e qualidade de vida
Mesmo quando as lesões são localizadas, é importante enxergar o paciente como um todo. E o tratamento vai além de cremes e loções — envolve acompanhamento contínuo, mudanças de estilo de vida e, em muitos casos, tratamento sistêmico com comprimidos ou biológicos.
👉 A verdade: psoríase não é só estética. É uma doença inflamatória que exige cuidado especializado.
Fonte:
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Boehncke WH, Schön MP. Psoriasis. Lancet. 2015.
Mito 3: “É melhor não tratar com remédio forte para não acostumar”
Essa é uma dúvida comum, especialmente entre pacientes que têm receio de medicamentos imunossupressores ou biológicos. Muitos acham que, ao usar um tratamento “forte”, o corpo vai “acostumar” e depois o remédio não vai mais funcionar.
Outros acreditam que é melhor “deixar a pele respirar” e só tratar nas crises.
Mas a ciência mostra o contrário.
👉 O controle contínuo da psoríase é o que reduz inflamação, previne surtos e diminui o risco de complicações sistêmicas.
O que pode acontecer, em alguns casos, é o corpo deixar de responder tão bem a uma medicação específica após algum tempo — mas isso não é “vício”. É um fenômeno esperado em doenças autoimunes, e existem estratégias médicas bem definidas para lidar com isso (ajuste de dose, troca de classe terapêutica, combinação de fármacos etc.).
Mais perigoso do que “acostumar” é não tratar direito e permitir que a inflamação crônica cause danos invisíveis ao organismo.
👉 A verdade: psoríase deve ser tratada de forma regular, com orientação médica individualizada.
Fonte:
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Menter A et al. Guidelines of care for the management of psoriasis. J Am Acad Dermatol. 2008.
Mito 4: “A alimentação não interfere em nada”
É verdade que não existe uma dieta específica que cure a psoríase. Mas isso não significa que a alimentação não tenha importância.
Estudos mostram que padrões alimentares anti-inflamatórios, como a dieta mediterrânea, ajudam no controle da doença. E que o excesso de peso, o consumo de álcool, carnes processadas, alimentos ultraprocessados e açúcares refinados podem agravar as crises.
Além disso, em pacientes com obesidade, a perda de peso melhora a resposta ao tratamento com biológicos.
Também há casos em que o paciente tem psoríase e outras condições autoimunes, como doença celíaca, intolerância ao glúten ou sensibilidades alimentares — o que pode exigir abordagem nutricional ainda mais específica.
👉 A verdade: a alimentação influencia, sim, na inflamação sistêmica e na resposta ao tratamento da psoríase. E deve ser parte do plano de cuidado.
Fonte:
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Barrea L et al. Nutrition and psoriasis: is there any association between the severity of the disease and adherence to the Mediterranean diet? J Transl Med. 2015.
Mito 5: “Já tentei de tudo e nada funciona”
Esse é um mito muito comum entre pacientes que convivem com a psoríase há muitos anos. Já ouvi frases como:
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“Usei todas as pomadas possíveis”
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“Já tomei remédio, fiz luz e nada adiantou”
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“Essa doença não tem jeito, doutora”
E eu entendo. Viver com uma condição crônica e imprevisível é desgastante. Mas aqui vai uma verdade libertadora: hoje existem tratamentos eficazes para praticamente todos os casos de psoríase.
Nos últimos anos, a medicina avançou muito. Temos terapias que atuam diretamente nos mediadores inflamatórios da doença, como os inibidores de IL-17, IL-23, TNF-alfa, entre outros.
E mais importante: cada paciente é único. O que funciona para um pode não funcionar para outro. É por isso que o acompanhamento com um dermatologista atualizado faz tanta diferença.
👉 A verdade: mesmo que você tenha tentado várias coisas, vale a pena reavaliar. Sempre existe uma nova opção, uma nova combinação ou abordagem que pode funcionar melhor.
Fonte:
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Reich K et al. Biologic therapies in psoriasis: an update for the clinician. Ther Adv Chronic Dis. 2022.
Como evitar esses mitos?
Aqui vão algumas dicas práticas:
✅ Busque informação em fontes confiáveis (como dermatologistas, sociedades médicas e publicações científicas)
✅ Evite automedicação — mesmo com produtos “naturais” ou “fitoterápicos”
✅ Converse com seu médico sobre seus medos e dúvidas — não esconda o que sente
✅ Cuide da saúde emocional. O corpo e a mente andam juntos
✅ Seja paciente com seu processo. O tratamento da psoríase é individualizado, progressivo e contínuo
Conclusão
A psoríase é uma condição que vai muito além da pele. E, infelizmente, os mitos em torno da doença ainda atrapalham milhares de pessoas a iniciarem ou manterem um tratamento adequado.
Meu objetivo como médica é sempre trazer clareza e orientação embasada em ciência — porque quanto mais você entende o que está acontecendo com seu corpo, mais fácil é tomar boas decisões.
Se você convive com psoríase, saiba: você não está sozinho(a). E há sim caminhos reais para controle, conforto e qualidade de vida.
Perguntas Frequentes sobre Psoríase
1. A psoríase some sozinha com o tempo?
Em alguns casos leves, pode haver remissão espontânea. Mas na maioria, é crônica e precisa de acompanhamento contínuo.
2. Posso tomar sol com psoríase?
Sim — em muitos casos, a exposição solar controlada ajuda. Mas o excesso pode irritar ou queimar a pele. Sempre converse com seu dermatologista.
3. Existe psoríase “leve” e “grave”?
Sim. Avaliamos a gravidade com base em fatores como extensão das lesões, resposta ao tratamento, impacto na vida do paciente e presença de artrite.
4. É possível ter psoríase só nas unhas?
Sim. A psoríase ungueal pode ser isolada e exige tratamento específico.
5. Biológicos são seguros?
Sim, quando bem indicados e monitorados. Eles passaram por testes rigorosos e são aprovados por agências reguladoras como Anvisa, FDA e EMA.